Como meu
primeiro texto, escolhi um relato que vivi na semana passada. Não tem uma
psicodelia, é um texto bem reflexivo. "Porr@ Igor, por que tu não escreve
aquelas coisas loucas?". Calma. Logo logo está vindo textos com um ritmo
mais frenético, mas como também não vivo de psicodelia, vale a pena dar uma
lida. É sobre um bate papo que tive com a famosa "tia do café da
esquina". Em alguns minutos parado em meio a loucura de Belém aprendi
muito e quero compartilhar com vocês. Espero que gostem ;)
Os que me
conhecem sabem que uma das qualidades no meio dos milhares de defeitos que
tenho é ouvir. Ouvir mesmo. Ouvir as histórias que alguém quer contar, mas que
ninguém ouve ou dá atenção. Seja do senhor que pegou um engarrafamento, seja o
tio da limpeza na faculdade ou da tia do café da esquina.
Semana
passada cheguei uns 10 minutos mais cedo no trabalho e com esse curto tempo
livre aproveitei pra tomar um café no outro quarteirão. "Oi meu amor, bom
dia, o que você deseja?", perguntou a senhora. (Esse tipo de tratamento
caloroso que eu admiro na minha terra. )
- Bom dia tia, me dê um café com pão, por
favor.
Sentei em um
banquinho ao lado do carrinho de vendas e fui servido com muita atenção por
ela. No primeiro gole de café, ela me interrompeu.
- Menino, agora me diz, como é que eu vou
obrigar um garoto de 25 anos a ir ao dentista?.
Ri.
- Esse meu
filho tá com esse negócio no dente e não quer ir. O pai dele já marcou e mesmo
assim ele tá com essa frescura.
- Mas por que tia, ele tem medo?
- Não sei, eu acho que é. Eu falo, falo e
nada.
Continuei
rindo.
- Mesma coisa pra comprar roupa. Falo pra ele
ir que eu vou com ele, mas não quer. Outro dia fui lá na Yamada e quando ele
gostou de uma, não deu nele. Cruel!
Enquanto eu
comia, ela atendia rapidamente os outros fregueses que chegavam, sempre com a
mesma paciência e carinho. Voltou a mim.
- Pior que ele é todo assim sabe? Já fez um
monte de coisa mas não gostou. Fez paisagismo uns 5 anos mas quando foi arrumar
emprego queriam dar salário de jardineiro pra ele., contou.
- Ah tia, mas aqui no Pará é assim, não dão
valor mesmo.
Ela concordou
e me explicou que as outras filhas dela estavam pra outro estado pois
conseguiram um emprego lá fora após se formarem. "Tão é bem pra lá!",
disse.
Papo vai,
papo vem, ela me falou de uma filha que está em Belém.
- Quando ela casou foi engraçado. O pai do
marido dela carregava o tijolo, o marido dela rebocava e ela ajudava a carregar
a massa, me contou rindo. Essa que é a casa né?.
- Claro tia. Isso mesmo que é casa, quando a
gente faz com o próprio suor.
Comecei a
ficar apreensivo pela hora. Olhei no celular e vi que era hora de ir. Antes
disso, ela me falou com orgulho, que iria ajudar a filha com azulejos pra casa
por conta do neto que tem um ano.
- Uma graça ele! Vou dar esses azulejos pra
ele não ficar na umidade e passar mal. Mas vou dar aos poucos, sabe como é
filho, se a gente começa a dar muito, eles se acham.
Após mais
alguns momentos de conversa, me levantei, perguntei quanto era, paguei e me
despedi.
- Tia adorei falar com a senhora mas tenho que
trabalhar. Qual seu nome?
- Izabel!
- Dona Izabel, foi um prazer viu? Amanhã
volto pra tomar um café.
- Tá meu filho, bom trabalho, que Deus te
abençoe!
E foi assim
os minutos de prosa com dona Izabel. Ao contrário de fazer a
"obrigação" do jornalista, ouvi dona Isabel sem compromisso algum,
sem pauta alguma pra fazer ou sem nenhuma entrevista formal que fazemos no dia
a dia. Com a correria que a gente vive e com o ritmo frenético que a cidade
gira, é raro ouvir até o pai ou a mãe em casa. Tudo é muito rápido, muito
instantâneo. Não sei se dona Izabel pode compartilhar uma conversa como a que
tivemos todo dia, inclusive eu também não. Ouvir alguém é uma atitude simples e
mais do que ouvir, aprender.
Vocês podem
se questionar, afinal, o que eu aprendi com dona Izabel?
Aprendi que o
filho de Dona Izabel precisa encontrar aquilo que gosta de fazer , algo prazeroso
ou que pelo menos lhe dê dinheiro de certa forma, assim como nós. Aprendi que o
esforço e o suor são as dádivas mais incríveis do ser humano e quando você
constrói algo com seu suor sem depender de ninguém, a vitória é mais gostosa.
Isso foi o que dona Izabel me passou em uma conversa na esquina de uma rua
movimentada no centro de Belém.
Vou
reproduzir aqui outros "dedos de prosa" que tiver e deixo aos amigos
e principalmente aos colegas que serão jornalistas a recomendação: ouçam. Vocês
vão descobrir que bacana que é o nosso mundo ouvindo as pessoas.
Aguardem as
próximas aventuras do Gonzo!

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