segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O que aprendi com a tia do café

Como meu primeiro texto, escolhi um relato que vivi na semana passada. Não tem uma psicodelia, é um texto bem reflexivo. "Porr@ Igor, por que tu não escreve aquelas coisas loucas?". Calma. Logo logo está vindo textos com um ritmo mais frenético, mas como também não vivo de psicodelia, vale a pena dar uma lida. É sobre um bate papo que tive com a famosa "tia do café da esquina". Em alguns minutos parado em meio a loucura de Belém aprendi muito e quero compartilhar com vocês. Espero que gostem ;)






Os que me conhecem sabem que uma das qualidades no meio dos milhares de defeitos que tenho é ouvir. Ouvir mesmo. Ouvir as histórias que alguém quer contar, mas que ninguém ouve ou dá atenção. Seja do senhor que pegou um engarrafamento, seja o tio da limpeza na faculdade ou da tia do café da esquina.

Semana passada cheguei uns 10 minutos mais cedo no trabalho e com esse curto tempo livre aproveitei pra tomar um café no outro quarteirão. "Oi meu amor, bom dia, o que você deseja?", perguntou a senhora. (Esse tipo de tratamento caloroso que eu admiro na minha terra. )

 - Bom dia tia, me dê um café com pão, por favor.
Sentei em um banquinho ao lado do carrinho de vendas e fui servido com muita atenção por ela. No primeiro gole de café, ela me interrompeu.
 - Menino, agora me diz, como é que eu vou obrigar um garoto de 25 anos a ir ao dentista?.

Ri.

- Esse meu filho tá com esse negócio no dente e não quer ir. O pai dele já marcou e mesmo assim ele tá com essa frescura.
 - Mas por que tia, ele tem medo?
 - Não sei, eu acho que é. Eu falo, falo e nada.

Continuei rindo.

 - Mesma coisa pra comprar roupa. Falo pra ele ir que eu vou com ele, mas não quer. Outro dia fui lá na Yamada e quando ele gostou de uma, não deu nele. Cruel!

Enquanto eu comia, ela atendia rapidamente os outros fregueses que chegavam, sempre com a mesma paciência e carinho. Voltou a mim.

 - Pior que ele é todo assim sabe? Já fez um monte de coisa mas não gostou. Fez paisagismo uns 5 anos mas quando foi arrumar emprego queriam dar salário de jardineiro pra ele., contou.
 - Ah tia, mas aqui no Pará é assim, não dão valor mesmo.

Ela concordou e me explicou que as outras filhas dela estavam pra outro estado pois conseguiram um emprego lá fora após se formarem. "Tão é bem pra lá!", disse.
Papo vai, papo vem, ela me falou de uma filha que está em Belém.

 - Quando ela casou foi engraçado. O pai do marido dela carregava o tijolo, o marido dela rebocava e ela ajudava a carregar a massa, me contou rindo. Essa que é a casa né?.
 - Claro tia. Isso mesmo que é casa, quando a gente faz com o próprio suor.

Comecei a ficar apreensivo pela hora. Olhei no celular e vi que era hora de ir. Antes disso, ela me falou com orgulho, que iria ajudar a filha com azulejos pra casa por conta do neto que tem um ano.
 - Uma graça ele! Vou dar esses azulejos pra ele não ficar na umidade e passar mal. Mas vou dar aos poucos, sabe como é filho, se a gente começa a dar muito, eles se acham.

Após mais alguns momentos de conversa, me levantei, perguntei quanto era, paguei e me despedi.

 - Tia adorei falar com a senhora mas tenho que trabalhar. Qual seu nome?
   - Izabel!
  - Dona Izabel, foi um prazer viu? Amanhã volto pra tomar um café.
  - Tá meu filho, bom trabalho, que Deus te abençoe!

E foi assim os minutos de prosa com dona Izabel. Ao contrário de fazer a "obrigação" do jornalista, ouvi dona Isabel sem compromisso algum, sem pauta alguma pra fazer ou sem nenhuma entrevista formal que fazemos no dia a dia. Com a correria que a gente vive e com o ritmo frenético que a cidade gira, é raro ouvir até o pai ou a mãe em casa. Tudo é muito rápido, muito instantâneo. Não sei se dona Izabel pode compartilhar uma conversa como a que tivemos todo dia, inclusive eu também não. Ouvir alguém é uma atitude simples e mais do que ouvir, aprender.

Vocês podem se questionar, afinal, o que eu aprendi com dona Izabel?

Aprendi que o filho de Dona Izabel precisa encontrar aquilo que gosta de fazer , algo prazeroso ou que pelo menos lhe dê dinheiro de certa forma, assim como nós. Aprendi que o esforço e o suor são as dádivas mais incríveis do ser humano e quando você constrói algo com seu suor sem depender de ninguém, a vitória é mais gostosa. Isso foi o que dona Izabel me passou em uma conversa na esquina de uma rua movimentada no centro de Belém.

Vou reproduzir aqui outros "dedos de prosa" que tiver e deixo aos amigos e principalmente aos colegas que serão jornalistas a recomendação: ouçam. Vocês vão descobrir que bacana que é o nosso mundo ouvindo as pessoas.


Aguardem as próximas aventuras do Gonzo!

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