No Dia do Estudante nada melhor do que relembrar os bons e velhos tempos de escola. Como passaram rápido, não? Esses textos foram escritos por mim durante o 3º ano, lá em 2010. O último surgiu após uma conversa de bar, já na faculdade, com um dos personagens envolvidos na história. Me sinto confortável de divulgá-los, pois apesar de todo o pessimismo sobre nós, cá estamos, quase feitos na vida. É impossível não se identificar!
PS: Na falta de título, nomeei com a música do Alice Cooper, totalmente sugestiva. Dá o play no fim da página e lê o texto. Experiência perfeita!
PS: Na falta de título, nomeei com a música do Alice Cooper, totalmente sugestiva. Dá o play no fim da página e lê o texto. Experiência perfeita!
Primeira parte - escrita no 1º semestre de 2010
Finalmente estávamos sozinhos. Corri, abri a porta, olhei para os
corredores e não havia ninguém. Meus olhos encontraram a sala da frente e ela
estava lá: aquela cara carrancuda, os óculos abaixo dos olhos, e um olhar
malévolo, que dá medo até depois de vê-lo diversas vezes. Entrei na sala e
espiei pelo vidro da porta, onde era possível ter uma visão completa do outro
lado. Minutos depois ela saiu de sua sala e foi em direção as escadas. Era
minha única oportunidade. Os outros que estavam comigo certamente não diriam
nada. Com um gesto gracioso, abri a porta e sem fazer barulho, andei
apressadamente no encalço dela. Meu coração parecia encostar-se ao
pomo-de-adão, suava frio e meu corpo tremia levemente. Não havia saída, teria
que seguir atrás dela. Desci os degraus como se eu fosse uma pena deslizando
pelo chão. Ela estava de costas e na percebeu que eu me aproximava. Parou no pé
da escada e olhos para os lados. Meu coração ameaçou saltar pela boca. Então
desceu o ultimo degrau e desviou para a esquerda. Era a hora. Corri para frente
sem olhar para trás , não conseguia pensar em nada, passei pelo portão e sai.
Finalmente consegui sair. O dia estava maravilhoso, o céu estava azul, o sol
brilhava intensamente no alto e a brisa suave balançava os galhos das árvores.
Consegui desviar da coordenadora e sai da escola, um plano astucioso, que só os
mais espertos são capazes de executar (com sucesso).
Segunda parte - escrita no 2º semestre de 2010
O dia estava sendo uma droga. Parecia que todos haviam concordado em
fazer nada. Na verdade nada estava acontecendo na aula. O assunto daquela
segunda-feira era o final de semana perdido por duas provas de 90 questões e
uma redação. Cansaço, esgotamento e uma gripe no auge, não me deixavam pensar em nada, a não
ser ir pra casa e dormir. Foi ai que surgiu a ideia.
Junto com um dos meus amigos, decidi ir embora. Dois a menos não fariam falta,
já que a maioria resolveu não ir naquele dia. O sinal tocou. Era o momento. A
adrenalina tomou conta novamente. Agora não havia coordenadora. O caminho
estava quase livre. Só precisávamos passar por alguns alunos e pelo porteiro.
Tarefa nada difícil. Tensão. Coração acelerado. Suor Frio.
- É agora! - Disse eu, e saímos discretamente da escola.
Havia sido fácil.
- Estou louco pra chegar em casa e dormir! – Comentei com meu amigo. Então ouvi
uma voz bem acima de mim.
- Igor, espera pega minha mochila! – Gritou outro amigo pela janela de nossa
sala que dava direto para a rua, ele também queria ir embora. E antes que eu
pudesse pensar em alguma coisa, a mochila já voara do segundo andar e estava no
chão. Olhei pra trás e vi um cara alto, branco e com uma camisa vermelha vindo
em nossa direção.
- Puta que pariu, o porteiro!
Se ele nos pegasse, certamente falaria pra coordenação. Sem perceber, o cara
que fugiu comigo, fugiu outra vez. Peguei a mochila e quando já estava do outro
lado da rua ele perguntou:
- Ei, de que turma vocês são?
E nesse momento, adivinhem, outra mochila voou pela janela e caiu ao lado do
porteiro.
- Primeiro ano! – Respondi correndo. Menti é claro. Vi de relance ele pegando a
outra mochila e voltando pra escola.
- Merda, vou ter que levar essa mochila pra casa! – Disse eu, sozinho, já a
caminho da parada de ônibus. Segundos depois o dono da primeira mochila
apareceu.
- Porra cara fudeu, o porteiro viu!
- É, eu sei, fui em que pegou a mochila lembra? E de quem era a outra? -
Perguntei.
- Do Jefferson!
- Merda! O porteiro pegou a mochila bem na hora!
- Cara ,vamos voltar?
- Nem sonhando! É melhor pegarmos o ônibus e voltarmos pra casa.
- É verdade. Estamos fodidos! – ele disse.
E estava certo. A essa hora toda a coordenação já deveria saber da historia e
com certeza seriamos chamados no dia seguinte.
- Igor, Luiz Henrique e Artur Sampaio na minha sala por gentileza.
Estava acabado. Nossos pais saberiam de tudo. Havíamos sido pegos!
Terceira parte - escrita em 2013
Engraçado relembrar esses momentos hoje.
São tantas memórias desses rápidos e intensos três anos, que muitas delas não
possíveis de virar uma narração. Poderia citar algumas como, por exemplo, o
conteúdo de uma lata de lixo sendo jogada em alguém que eu esqueci o nome, ou
rolos de papel higiênico servindo como confetes nas aulas na sala de vídeo, e
até uma brincadeira maligna, onde a única regra era desviar de balaços de bola
de basquete. Enfim. Esse texto conta o que aconteceu na sala da coordenação,
por conta do episódio que narrei no segundo texto dessa pequena série. Dessa
vez, estamos de frente com a coordenadora. Vamos nessa?
“Igor, Luiz Henrique e Artur Sampaio na minha sala por gentileza.”
Um por um, saímos da sala de aula. Não
há coisa pior do que ser observado por trinta olhares debochados enquanto a
coordenadora te chama. Os risinhos me deixaram mais puto ainda. A coordenadora
pedagógica nos levou até uma sala onde o vice coordenador já nos aguardava. A
vontade de rir já era grande e ficou ainda maior quando vimos o coordenador com
um largo riso escondido por trás das mãos. Sentados lado a lado e de frente
para os coordenadores. Trocávamos olhares e observávamos aquele maldito bloco
de notas nas mãos da coordenadora.
- Bonito né? – Começou ela.
- Olha eu não sei. Não sei de onde vocês
tiraram essa idéia. Fugir da escola, jogando mochilas pela janela?
As nossas bocas estavam todas presas com as
mãos, evitando um riso.
- Vocês acham isso engraçado? –
Continuou.
Para nosso alívio, o coordenador
interrompeu.
- Meninos, vocês sabem que isso é
errado! Se não queriam ficar na aula, bastava me procurar, e eu ligaria pros
pais de vocês.
Permanecíamos calados. As respostas que
vinham em nossas cabeças mereciam ser dadas. Porém, isso garantiria passaporte
para a suspensão. E ela continuou outra vez...
- Sabe o que eu fico mais admirada? É
que vocês estudaram em escolas religiosas, e eu tenho certeza que a educação lá
não era essa. Eu me admiro também do Jefferson que não fugiu por falta de
oportunidade!
Seguramos o riso mais uma vez. Nem
mesmo longos anos de escolas religiosas conseguiram conter as merdas que
fazíamos.
- E ele ainda jogou a mochila! Vocês vão fazer vestibular né? O Arthur vai fazer UNAMA. As janelas lá são mais altas... Só quero ver esses resultados ano que vem. Eu fico pensando o que não faltou pra vocês não pularem junto com a mochila.
- E ele ainda jogou a mochila! Vocês vão fazer vestibular né? O Arthur vai fazer UNAMA. As janelas lá são mais altas... Só quero ver esses resultados ano que vem. Eu fico pensando o que não faltou pra vocês não pularem junto com a mochila.
O Luiz virou e cochichou com a mão na boca
“um pára-quedas”. Tive que fingir uma breve tosse pra evitar a gargalhada.
- Eu só não vou suspender os três porque
o Mário me pediu. Mas ainda quero conversar com os pais de vocês. Assinem aqui
e voltem pra aula.
Saímos da sala, nos olhamos e rimos.
Aquele fora meu último passeio à coordenação. Três anos se passaram desde
então. O melhor de tudo, é os tais resultados que ela esperava foram todos
positivos. Quase todos daquela sala hoje são universitários.
Alice Cooper - School's Out
Que texto do caralho. O primeiro, foi muito suspense, foda!
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