quinta-feira, 21 de maio de 2015

Daqui, em 1976, acenei pra você

Reprodução

Você pode passar todos os dias ou ocasionalmente pelo Ver O Peso sem se dar conta dessa frase. Ela está ali, estampada abaixo de uma janela naquele prédio velho do lado do Mercado de Ferro. O Solar da Beira como é conhecido, é um pequeno resumo da cidade de Belém hoje: um lugar entregue a própria sorte, sujo, onde o povo e a apenas o povo faz algo para que sobreviva.

No momento que escrevo este texto, artistas e ativistas de diversas realidades estão fazendo a ocupação do Solar. Já são quase duas semanas de programação cultural aberta e feita sem qualquer recurso público. Aliás, nem existem. O artista na cidade não tem espaço. Nasce, cresce, produz e morre. Seu suor, garra, porta na cara e porrada é que dá algum ânimo.

“E ainda, a situação estrutural do prédio sem energia elétrica, com algumas paredes ruindo, muitas tábuas soltas no chão e a falta de limpeza atraindo animais de várias espécies nos fazem sentir literalmente a decomposição social e patrimonial da cidade — o que poderia ser amenizado se a manutenção e a vistoria anual do Solar da Beira fossem realizadas pela Prefeitura de Belém.”, diz um trecho da carta-manifesto publicada na página da ocupação no facebook.

Coincidentemente, na semana em que o Solar ganha fitas coloridas, quadros, luz e vida, leio um desabafo emocionante do Edyr Augusto Proença que anunciou o fim do Teatro Cuíra. Vivia ali na Riachuelo. Morreu em um dia qualquer da semana. As cadeiras foram doadas e o palco já foi desmontado. A cortina fechou.

“O Teatro Cuíra fechou, num dia qualquer da semana. Foi bom enquanto durou. Encheu o peito de alegria, orgulho, felicidade. Dever cumprido. Agora é mais um “já teve”. Quem não foi, não viu, perdeu! Vitória da incivilidade, da cretinice, da estupidez. Doeu. Doeu muito. Mas houve muita felicidade. Viva o Cuíra!”,declarou Edyr Proença em seu perfil no facebook.

Ali perto, na Presidente Vargas, o Cinema Olympia, segundo mais antigo do Brasil, também agoniza. Vive de programações de alguns cineclubes. Filmes exibidos para públicos grandiosos e dentro de um cinema luxuoso em outros tempos são exibidos novamente para uns poucos gatos pingados que por lá aparecem. Investimento público? Piada! As salas que serviam para alguns serviços do antigo Severiano Ribeiro estão lá atrás da sala de exibição, vazias. Um amigo próximo me disse que já havia apresentado um projeto para dar fôlego ao espaço. “Tu sabes onde tá? Dento da gaveta deles!”, me disse. Preciso dizer quem são eles?

Bem na frente, o Theatro da Paz é apenas um local bonito para fazer umas fotos e para ser mostrado como cartão postal da cidade. O povo não entra. "É coisa de rico", dizem alguns. E é mesmo. Coisa de gente rica! Agora nem isso. Tirando alguns festivais durante o ano, os palcos estão vazios. As cortinas também, como as do Cuíra que deixaram de existir.

Carnaval a gente não pode brincar porque a prefeitura não deixa. Melhor dizendo, a prefeitura seleciona quem pode. Se tiver abadá de 60 pilas, cordão de isolamento e trio elétrico tá liberado, agora se for com trigo, confete, fantasia e uma bandinha de fanfarra, não pode. Gente pobre eles não querem circulando por ali. “Esse povo urina nos prédios, são mal educados, porcos, imundos!”

Sabe qual é a ironia disso tudo? A prefeitura de Belém alega que faz isso para preservar o patrimônio histórico. Outra piada! Os nossos velhos casarões estão para cair, sem ao menos uma porca pintura de cal na frente.

O Olympia perdeu a majestade. O Cuíra se acabou.
O São Cristóvão? Que desastre! A prefeitura não ajeitou.

A República? Que tristeza!
A prefeitura abandonou.

E o povo? Não tem arte!
A prefeitura desprezou.

Versos inúteis para ilustrar uma inútil gestão.  Até mesmo a praça da República ganhou o desprezo da prefeitura. Está lá, gritando por socorro. Prometeram o São Cristovão e bom, tá lá na Magalhães Barata decorado com trepadeiras.

Cineasta, poeta, pintor, músico e  mestre de carimbó. Todo mundo acena e grita pra você. Tudo aqui padece como os poucos espaços que temos. Ritmos, cores, cantos e sabores vão se perdendo. Guerreiros são aqueles que resistem.


Essa é a nossa querida Cidade Morena que vai completar 400 anos. Vamos juntos comer o bolo de hipocrisia que atual gestão nos oferece.